SUDÁRIO

IMPRESSÕES DO SUOR DA TERRA - VESTÍGIOS DE UTOPIAS AO RÉS DO CHÃO

"Vergara quer ser a consciência vigilante dessas instân (cias) (tes), mais geral que a moda e a forma: o lugar e o tempo, só cabem a ele construir: e ambos são fundamentais aqui: a busca do tempo-lugar perdidos no subdesenvolvimento-selva: as perguntas, as respostas, as questões: validade delas: de onde abordar a conceituação de valor?"

Helio Oiticica

 

"Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho ou de Copérnico. Não há um único homem que não seja um descobridor."

                                                                                              Jorge Luis Borges

"A proposta instigadora dessa exposição é criar um acorde único de uma grande viagem experimental composta de pequenas viagens que expressam notas aparentemente dissonantes de uma sinfonia humana planetária inacabada. Tempos e mundos distantes são aproximados pela vontade plástica desse artista que imprime em pequenos lenços um sentido imaginário de arqueologia, história e produção de pensamento que se materializa como formas de conhecimento direto da terra. O Sudário é resultado desta grande viagem em processo que se realiza como constituição de uma cartografia especial dos lugares-tempos e templos de ressonância da odisséia humana como acontecimento solidário do viver juntos. Simbolicamente o ritual da monotipia no lenço exige do artista o seu ajoelhar na terra, e pelas mãos ao colocá-lo no chão, é ‘como se’ o mundo parasse nesse tempo-lugar perdido, e por alguns momentos tudo girasse ao seu redor. Quantas histórias e vozes ecoam em cada lenço? É desta forma também que a “farmácia baldia” se irradia pelas encostas da ponta da Boa Viagem como simbólica cooperação de saberes e fazeres terapêuticos alternativos ligados às plantas medicinais, que remontam à comunidade de curadores Essênios. Aqui nesse museu redondo estão reunidos retalhos das várias faces da utopia concreta humana. Vergara declara – “a arte existe para produzir pensamentos”. Este é o sentido público desta exposição de se abrir como território de acontecimentos solidários, onde a arte é dada como tecido inaugural de experiências de partilhas de pensamentos onde se invocam memórias transculturais do aparecimento e desaparecimento de comunidades utópicas."

Luiz Guilherme Vergara

ENSAIO SOBRE OS SUDÁRIOS -E UTOPIAS AO RÉS DO CHÃO

Qual é a substância desses lenços?  Como o título dessa mostra sugere, estes lenços são então invenções artísticas que canalizam forças simbólicas, ‘como se’ fossem sudários para um jogo visionário de uma consciência vigilante de “instân(cias) (tes) .... na busca do tempo-lugar perdidos”.  (Oiticica, 1968). Um jogo de dardos e dados como define Vergara. O quanto eles, como parte de uma invenção de procedimento plasmador de presenças sutis, se realizam como disposição e dispositivo artístico para captura do imaginário, do inefável, da aura e alma desses lugares e mundos distantes? O nome Sudário proposto pelo artista reflete sua busca e vontade de potência de imprimir por imersão a presença ou memória ativa do sagrado sobre a matéria, o pó e as ervas de um solo histórico por onde a humanidade se curvou no seu destino solidário.  Nestas viagens os lenços se tornaram coletores ou sondagens arqueológicas de instan(cias) (tes) da cartografia de uma consciência nômade do artista fazendo contato direto com as terras marcadas pela odisséia humana.  Nesta exposição já não existem desenhos, pinturas ou representação decorativa de uma realidade visível, mas sim, uma impressão cega de totalidades inacabadas contadas nos próprios grãos da imensidão humana.

Os lenços já podem ser vistos como expressão e re-invenção dos vestígios das múltiplas faces de uma diáspora da resistência e contínua transformação da condição humana.  Quando Vergara começou sua peregrinação pela face-América (Oiticica, 1968), seja no Pelourinho – nas ficções simbólicas e geográficas do Pagador de Promessas de Dias Gomes (1964) ou nas Missões de São Miguel (século XVIII) – quando no sul das Américas do Sul, se fundou a primeira comunidade comunista reunindo artistas, músicos, jesuítas e índios guaranis.  Vergara não imaginava que também estava inaugurando uma grande viagem de pequenos inventos nos lenços de mão, como medida de um propósito-processo de descobertas de pistas, pegadas e vestígios ao rés do chão de uma cartografia dos acontecimentos utópicos da unidade humana.  Não é à toa que o destino desta grande viagem é uma outra Face do Mundo, não apenas America. Daí a oportunidade de viajar para o Cazaquistão foi tomada como busca pelas mesmas faces dos índios guaranis – nômades milenares da travessia do Estreito de Bering. As viagens de Vergara alimentam sua motivação intrínseca pela construção de um conhecimento direto ou descobrimento que se dá somente pela fenomenologia da consciência expandida no mundo, pela imersão na instância e instante suspenso desses encontros com o outro. Simbolicamente o ritual da monotipia no lenço exige do artista o seu ajoelhar na terra, e pelas mãos ao colocá-lo no chão, é ‘como se’ o mundo parasse nesse tempo-lugar perdido,  e por alguns momentos tudo girasse ao seu redor.   Quantas histórias e vozes ecoam em cada lenço?

 

“A invenção é o motor da arte”  – declara Carlos Vergara. Neste sentido, a vontade plástica e plasmática seria então o coração da arte. Para apresentar os lenços reunidos nesta mostra – Sudário - ressaltamos este precioso entrelaçamento entre vontade e invenção que animam incansavelmente a exteriorização de um propósito de sentido da arte que somente se revela na medida do risco e descobrimento da experiência do seu acontecimento no mundo. Assim, a prática das monotipias pelo Vergara é aplicada aos lenços como uma invenção que se desdobra de sua trajetória já consolidada em décadas do ofício experimental da pintura desde os anos 60, que gradativamente dá lugar a condição de artista-viajante do mundo atuando em zonas e terras estrangeiras ao domínio da globalização tecnológica. Os lenços representam paradoxalmente tanto a disposição quanto o dispositivo de rupturas estéticas e éticas, de formas e convenções de valores –  que comprovam os comentários de Oiticica (1968) sobre Vergara – que “deixando de lado certos pudores esteticistas; nisso reside sua coerência : ir ao final sem sobras.”  Ao inventar e descobrir novos meios de expressão, Vergara se afasta com coragem de sua própria virtuose inicial de desenhista criador de linhas e formas precisas. O que se reúne nesta mostra é exatamente a re-invenção de ser artista através de viagens onde realiza-se uma transfiguração e alquimia da arte através da invenção de procedimentos de impressão que acompanham a imersão corporal cega nas matérias e memórias de tempos-lugares esquecidos em resíduos e vestígios de utopias ao rés do chão.

Daí Vergara se lança “entre o jogo de dados e jogo de dardos” com pequenos lenços que seguem os movimentos da percepção intuitiva com a redução do procedimento artístico ao gesto mínimo, micro-geográfico, capaz de imprimir o ponto ínfimo do infinito do macrocosmo da efêmera experiência humana. Ao mesmo tempo pela “consciência vigilante”  da qual comenta Oiticica,  busca a impressão encarnada do inefável ou sagrado que subjaz na matéria da terra e da história, agindo pela imersão ampliada entre corpo – lenço e mundo na escolha que aponta para o centro de um campo – onde se acumulam ressonâncias de propósitos universais dentro das histórias locais.