ORAÇÃO A UM MUNDO QUE, IMPOSSÍVEL DE SER RESTAURADO, PODE AMANHECER NA LEMBRANÇA

Em confronto com as recentes telas luminosas e monumentais, ainda no atelier, que sintetizam a experiência desenvolvida nos dois pólos do trabalho de Vergara nos últimos anos, estas, diante de nós, são a passagem, o caminho do meio. O centro pode não ser, portanto, a sábia e pusilânime fuga do abismo e dos extremos, mas o ponto necessário em direção a um objetivo, seguramente não apontado, antes inventado no próprio percurso. Esta visão a posteriori de um processo de trabalho criativo sempre traz o ranço da simplificação, da facilidade daquela que, observando à distância, traça no mapa o percurso da aventura que não realizou.

O que foi acrescentado e transformado nesse conjunto de telas que vão lhe diferenciar da longa série anterior de impressões com pigmentos in natura, que às vezes recebiam uma intervenção cromática em tons azuis, amarelos ou vermelhos, em forte oposição às cores sombrias de terras queimadas das paredes da pequena indústria de pigmentos no interior de Minas Gerais?

Não é uma série aberta, mas um conjunto fechado, uma totalidade que se diferencia da anterior, buscando apresentar-se de uma só vez, presentes começo, meio e fim. Antes nos encontrávamos diante de momentos sucessivos de um processo cujos limites, só agora, podem ser traçados. Se unem numa pequena coleção na busca de uma estruturação mais sistematizada e outro tratamento da luz, ou melhor, outro diálogo com a luz.

Essa organização interna mais evidente não constrange a presença de todo o processo anterior, porque manifesta-se pelo artifício da justaposição de um elemento estranho à superfície pictórica. Digamos que a vontade construtiva não violentou os elementos que evocavam a primitiva manifestação do gesto de impressão das marcas dos pigmentos. Para construir esta arquitetura, o círculo e a elipse, elementos escultóricos, atravessam todas as peças como uma invariante estrutural do conjunto. Desdobram o trabalho, lhe dão uma existência espacial, paradoxalmente, negando-lhe volume, como se insistissem na memória de sua origem: as telas. Isto, além de sustentar a idéia da interdependência entre os diversos trabalhos, ajuda a realçar sutilmente, as diferenças.

Mas há na pintura um jogo a mais, um problema acrescentado na oposição entre a opacidade e a transparência, entre a espessura das camadas pictóricas – seus atributos de absorção de luz pelas terras que se distribuem em marcas, quase ícones das diversas impressões – e o suporte.

Um dia na sua história, a pintura se despregou dos muros, foi para as madeiras e, mais tarde, para as telas. Essa conquista, muito além de seus aspectos técnicos e sociais, contribuiu para mudanças de linguagem e até mesmo para acelerar processos produtivos, com conseqüências para todo o pensamento pictórico posterior à sua introdução. Num jogo especular com os elementos da história, Vergara inverte essa dimensão, trazendo para as telas – o suporte por excelência desde a Renascença – as marcas do suporte ancestral, o muro. Esses elementos já estavam presentes em todas as séries anteriores. Mas, agora, à força do contraste entre a opacidade da superfície impressa e a luz que atravessa a semi-transparência das telas, a oposição se materializa de modo mais evidente: sem o chassi convencional e expostas com as vértebras à mostra, círculos e elipses, se opondo à sua forma quadrada. Adquirem uma espécie de fragilidade construída para que o elogio do muro e do pigmento se manifeste de um modo esclarecedor.

São paredes de um claustro dilacerado pela laicização da vida e pelo rebaixamento das atividades que exigem destreza. Expostas numa capela ou numa sala, solicitam o silêncio, não de uma cerimônia, mas da oração a um mundo que, impossível de ser restaurado, pode amanhecer na lembrança.

Paulo Sergio Duarte, maio de 1993

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