NATUREZA INVENTADA

NATUREZA COMO MATÉRIA


Talvez para muitos a prática escultórica de Carlos Vergara seja uma surpresa ou ao menos algo a que assistimos com pouca frequência na sua carreira. Contudo, essas esculturas “transbordam” pintura. A gênese das suas mais recentes esculturas está diretamente associada a um pensamento bidimensional. Nascem do plano e em particular pelo interesse que Vergara tem pela natureza. Ademais, o fato de esta exposição ser composta por lenços, desenhos e uma pintura demonstra, em particular, não só a passagem do plano ao espaço, mas o quanto todos esses suportes convivem harmonicamente e de forma indissociável em sua obra. É impressionante, por exemplo, a maneira como na pintura escolhida para esta exposição a representação da natureza e a sobreposição de camadas e vetores criam uma intersecção de imagens que estão perfeitamente associadas às formas orgânicas e livres das esculturas. Estas, por vezes, parecem caules e em outros momentos, fragmentos de corpos humanos.

É curioso esse momento de fusão de organismos, porque as esculturas em acrílico desejam claramente esse espelhamento da natureza. O fato de serem translúcidas faz refletir o entorno em sua estrutura. Ela é toda paisagem. Aliás, todas as esculturas expostas não querem imitar a natureza, porque elas já são parte dela. Só podem existir na exterioridade e, portanto, não se trata de ilustrar a natureza, mas ser parte dela. Elas não ocupam o Museu do Açude no sentido de preencherem de forma obrigatória e consciente espaços museológicos, mas parecem desejar uma espécie de camuflagem – daí as suas formas orgânicas e o modo como ocupam o lago e o entorno do museu –, como se sempre estivessem ali e pudessem ser confundidas com a flora local.

Em todas as esculturas, por estratégias distintas, há a aparição de um corpo, e não afirmo apenas por conta da forma que elas aparecem ao mundo. Se nas realizadas em acrílico, ele é constantemente solicitado e presentificado naquele vazio que passa a ser preenchido pela experiência já citada do espelhamento, que transforma sua superfície translúcida em um feixe de cor, luz, matéria; nas esculturas em aço corten, a passagem que esse material sofre ao longo do tempo transmite a ideia de um organismo vivo e pulsante à escultura. Assim como a natureza, o aço é índice de tempo. De uma estrutura pesada e com presença altiva no espaço, a escultura logo se converte em um corpo, digamos, suscetível a instabilidades. A sua forma opaca também se apresenta como uma plataforma para a ação da natureza, assim como nas translúcidas esculturas em acrílico, mesmo que por operações distintas. Há uma dupla circunstância temporal ocorrendo sobre aquela superfície. Concomitantemente à ação do tempo cronológico, há um investimento silencioso, perceptível apenas como experiência de longa duração, que de forma lenta nos revela a conversão do aço em pele. A oxidação e o surgimento de “imperfeições”, relevos, crostas, “desgastes” sobre a sua superfície associam-se a uma metáfora sobre a passagem de tempo e o envelhecimento de um corpo. A sua estrutura em aberto, na qual o volume é preenchido pelo ar, acentua a característica de tornar tudo pleno e revelador. Essa imagem de uma estrutura em aberto assim como a forma orgânica e, simbolicamente, quase vegetal das esculturas criam uma associação direta com os desenhos em preto e branco expostos. São sombras ou projeções de um lugar que pode ser diretamente associado à própria instância transitória da natureza. Em um desses desenhos, em particular, o gesto empregado através de resina cria uma volumetria que reforça a tensão e a ideia de se desprender do plano.

Todas as esculturas têm um caráter de mutabilidade, pois compartilham uma contínua transformação, que também é denotada nos lenços. A matéria que os compõe (terra, galhos e toda a sorte de materiais que foi deslocada daquele lugar onde a monotipia foi feita para o tecido) está em mudança permanente. A natureza não está apenas presente nessas obras, ela é o meio, a própria obra. É perspicaz, porque em alguns dos lenços observamos imagens verticalizadas que se assemelham às esculturas aqui exibidas. É como se, de uma forma não prevista, a ideia para essas esculturas já estivesse presente – mais uma vez – na bidimensionalidade. Tanto as monotipias – esse processo de decalque da natureza no qual o pigmento, a cor, a textura e os materiais que vêm da terra constroem uma nova forma de expressão para a pintura – quanto as pinturas e as esculturas fazem uso da natureza como matéria. Em ambas estão impregnadas um gesto que as qualificam com uma força vital sem tamanho, um diálogo entre natureza e expressão artística que reavaliam a nossa experiência com o mundo, pois solicitam que o nosso olhar se torne mais sensível para situações que, por estarmos tão absortos em nós mesmos, nem percebemos.

Felipe Scovino

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