ACONTECIMENTOS PICTÓRICOS

 

O que esta série de pinturas nos revelam são acontecimentos, situações, instáveis organizações. Elas mantém um grau de imprevisibilidade, uma deliberada margem de gratuidade e espontaneidade. A princípio poderia prevalecer a sensação de que, antes de tudo, é o sentimento do prazer que as impulsiona num movimento contínuo e irrefletido de plena entrega ao fluxo dos impulsos. Antes de nos indagarmos se isto é humanamente possível, percebemos que aqui não se trata propriamente da matéria bruta do prazer, do seu conteúdo, mas da sua forma. A matéria prima é inevitável e necessária, porém é a forma da vivência que se quer que permaneça e possa ser repetida, reexperimentada, para não se dissipar na transitoriedade no momento sem ser conhecida, que não se introjete na culpa e possa persistir como experiência conquistada e a cada vez renovada, vivida na sua antecipação e realização. Trata-se antes do sentido do prazer do que o prazer.

A tela é o lugar de um acontecimento, o lugar onde algo acontece: as possibilidades de uma pintura. Creio que esse acontecimento pictórico não diverge, em essência, de nenhum outro; circunstância onde cruzam certezas e dúvidas, acaso e destino, encontros e desencontros; campo onde circulam forças de diversas intensidades e direções às quais ora resistimos ora nos submetemos. Situação que exige um ato através do qual nos colocamos tal como somos ou pensamos ser, onde mesmo na dúvida ou na incerteza podemos nos lançar em direção a um fim. Momento de uma unidade apenas aparente. Onde a princípio parecia existir uma entrega ao fluxo, simples deixar-se levar, reconhecemos uma dimensão que assume e mantém o conflito. A vontade permanece a única garantia; a garantia de manter a coesão no dilaceramento, sustentar opostos na mesma decisão. Este não é simplesmente o sentido do prazer, é o drama da vontade. Um esforço contínuo e a cada momento posto a prova, uma intenção determinada a se expor e se revelar.

Encontramos nessa pintura movimentos simultâneos e divergentes. Cada tela é uma fonte de emissões que se comportam diferentemente. Flutuam na superfície, emergem no interior, mergulham. As diferentes modalidades com que a superfície é impregnada alterna graus de pulsação, ressonâncias, altera proximidade e distanciamento.A maior ou menor irradiação de energia não está na força do gesto que imprimiu a sua marca, está na sutil diferenciação de emissões. Acompanhamos essas diferenciações nos movimentos simultâneos de sinais opostos, nas sugestões de pontuações e nos ritmos, nas ambivalências cromáticas, no pulsar que faz e desfaz uma cena onde permanece onde permanece a intensidade e a integridade originária. Estamos entre a abstrata organização da vontade e a urgente desorganização dos impulsos, diante da tentativa de manter essa fluída ordem, onde a convivência seja possível, na qual a vontade não seja esquecimento de uma adesão e a urgência da adesão não imponha a presença do irrefletido. Uma vontade que ante as dúvidas e a imprevisibilidade do momento confia na realização e desdobra no sentimento do prazer.

A forma com que o fluxo dessa experiência se configura alterna condensações de ordem e caos. A repetição, às vezes constante, de um elemento, a obsessão por um determinado gesto, procura isolar cada uma dessas experiências específicas, identificá-las e reconhecê-las na indiferenciação inicial. Existe quase uma necessidade de torná-las íntimas e reconhecíveis, para que possam ser repetidas enquanto experiências vividas. Hábito que não cansa; ter o familiar sempre renovado, nunca esgotado. Desejo de prolongar a permanência do que é momentâneo, trazê-lo imediatamente para si, evitar a estranheza e os mal-entendidos. Há nessas telas um pressuposto de conviviabilidade, tornar tudo próximo, acessível, comunicável. Este o desejo possivelmente utópico dessa pintura, o horizonte no qual se projetam figuras e fórmulas do encantamento.

Acima de tudo há nessa vontade que experimenta o conflito, ainda que confiante na realização, e por causa disto, uma dimensão ética; a procura de uma grandeza sóbria, autodimensionada. Essa confiança na realização não encontra seu sentido na reflexão, exprime a experiência da ação e do fazer, que só se revela e só se faz sentido através dela mesma, no momento próprio do trabalho, na consciência da atividade, no reprocessar constante que mesmo realizado por um só dá sentido a todos. Nessas direções conflitantes que se aproximam, da ação que reconhece seu sentido e seu fim nela mesma, nos impasses e soluções que encontra, vai se impondo uma satisfação esclarecida, intensamente realizada.

O percurso dessa pintura exprime em certo sentido os modos de se relacionar com a pintura, ou melhor, os modos como ela se relaciona com a pintura. Em outro momento podemos reconhecer um determinado modelo, certas influências e certos procedimentos. Passagens solitárias que exprimem menos um programa do que um ambiente, um contexto. São possibilidades de convivência que se colocam e sugerem níveis e intensidades de envolvimento. Se essa pintura não segue um programa rigorosamente calculado, mantém uma coerência na instabilidade do afeto. Pois aqui a pintura se organizada segundo a dinâmica do afeto. Esta é sua ordem positiva, sua modalidade de existência, seu avançar, retroceder, continuar. Talvez assim possa correr o risco da instabilidade ou da superficialidade, entretanto, a cada momento e a cada situação, sabe encontrar a espessura correta da experiência, a medida adequada, a intensidade apropriada.

Assumindo os mais diversos riscos, a pintura de Vergara apresenta mesmo em seus momentos mais erráticos e incertos uma força de convencimento. Em cada uma de suas etapas transparece o empenho e o entusiasmo que convive espontaneamente com dúvidas e incertezas. Existe nela a presença constante de uma inquietude, de uma urgência, que se combina com a insistência na execução, sempre surpreendendo com si mesma e com a aventura que é a Pintura. Exercício de entrega à pintura: misto de satisfação e temeridade.

Paulo Venâncio Filho, setembro de 1989

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